03 de junho de 2026
Especiais

Por que algumas pessoas têm tanto medo de serem abandonadas?

Entenda como as primeiras experiências emocionais influenciam os relacionamentos e por que o medo da rejeição pode acompanhar muitas pessoas na vida adulta.

Por Lays de Almeida – Psicanalista | Siga no Instagram: @layscdealmeida

Atualizado em 02/06/2026 | 14:21:00

Você já enviou uma mensagem e, diante da demora na resposta, começou a imaginar que algo estava errado? Já sentiu necessidade constante de confirmação em um relacionamento? Ou percebeu que pequenos afastamentos despertavam um medo desproporcional de perder alguém?

Embora muitas pessoas interpretem essas experiências como insegurança, carência ou "excesso de sensibilidade", existe uma explicação psicológica bastante consistente para esses padrões: a Teoria do Apego.

Desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista John Bowlby na década de 1950 e posteriormente aprofundada pela psicóloga Mary Ainsworth, a teoria propõe que as primeiras relações que estabelecemos com nossos cuidadores influenciam profundamente a forma como nos relacionamos ao longo da vida.

Em outras palavras, aprendemos desde cedo o que esperar dos vínculos, aprendemos se o amor é seguro ou imprevisível, se podemos confiar nas pessoas ou se precisamos permanecer em alerta para não sermos abandonados.


O que é o apego?

O apego é um vínculo emocional profundo que buscamos estabelecer com pessoas importantes em nossa vida e sua função principal é proporcionar segurança.

Quando uma criança cresce em um ambiente onde suas necessidades emocionais são percebidas e acolhidas de forma consistente, tende a desenvolver um apego seguro. Ela aprende que pode confiar, pedir ajuda quando necessário e explorar o mundo sabendo que existe uma base segura para retornar.

Mas nem sempre essa experiência acontece dessa forma. Quando o cuidado é inconsistente, às vezes presente, às vezes ausente, às vezes acolhedor, às vezes imprevisível, a criança pode desenvolver um padrão conhecido como apego ansioso.

O apego ansioso é um dos estilos de apego mais comuns e também um dos que mais aparecem nos consultórios atualmente. Pessoas com esse padrão costumam viver os relacionamentos com uma mistura intensa de desejo de proximidade e medo de abandono. É como se o sistema emocional estivesse sempre monitorando o ambiente em busca de pistas que indiquem perigo para o vínculo.


Não é drama, é uma tentativa de proteção

Um dos maiores equívocos sobre o apego ansioso é acreditar que essas pessoas sofrem porque amam demais, mas na realidade, muitas vezes o sofrimento está menos relacionado ao amor e mais relacionado ao medo. Medo de não ser suficiente, medo de não ser escolhido, medo de ser deixado para trás.

Quando observamos a história dessas pessoas, frequentemente encontramos experiências de cuidado marcadas pela imprevisibilidade emocional. Não necessariamente situações de violência ou negligência grave, mas relações em que o afeto nem sempre era previsível, pois a criança aprende, ainda sem perceber, que precisa estar atenta, que o amor pode desaparecer, que a conexão pode ser perdida e anos depois, essa mesma lógica continua operando nos relacionamentos adultos.

Pessoas com apego ansioso frequentemente relatam pensamentos como: "Será que fiz algo errado?" "Será que ele ainda gosta de mim?" "Por que ela está diferente hoje?" "Será que estou incomodando?"

Também é comum que sintam necessidade frequente de confirmação, tenham dificuldade em lidar com incertezas e gastem muito tempo analisando situações relacionais. Muitas vezes, por trás dessa busca por garantias, existe uma tentativa legítima de encontrar segurança, mas o problema é que nenhuma quantidade de mensagens, explicações ou promessas consegue preencher completamente uma insegurança que tem raízes mais profundas.


É possível mudar?

Essa talvez seja a pergunta mais importante. E a resposta é: sim.

A teoria do apego não sugere que estamos condenados a repetir os mesmos padrões para sempre, pois os estilos de apego são tendências relacionais, não sentenças definitivas.

O primeiro passo é desenvolver consciência e perceber quando estamos reagindo à situação presente e quando estamos reagindo a feridas emocionais antigas. Também é importante aprender a diferenciar fatos de interpretações, visto que a nossa mente cria situações tentando preencher a incerteza.

Outro aspecto fundamental é fortalecer a relação consigo mesmo. Quanto mais nossa autoestima, identidade e senso de valor dependem exclusivamente da validação do outro, maior tende a ser a ansiedade nos relacionamentos.

Isso passa por fortalecer a própria identidade, resgatar desejos que não giram apenas em torno dos relacionamentos, cultivar amizades significativas, desenvolver autonomia emocional e criar uma vida que faça sentido para além da presença ou ausência de uma pessoa.

A terapia também pode ser uma importante aliada nesse percurso, oferecendo um espaço seguro para compreender as raízes desses medos e elaborar experiências que ainda permanecem emocionalmente abertas. Com o tempo, a pessoa deixa de buscar no outro a garantia constante de que é amada e passa a desenvolver uma confiança mais profunda: a de que, independentemente do que aconteça, continuará sendo capaz de se acolher, se sustentar e seguir em frente.


Um olhar mais gentil para si mesmo

Talvez uma das reflexões mais importantes sobre o apego ansioso seja compreender que ele não nasce de uma escolha, mas de uma adaptação. Ninguém decide sentir medo de ser abandonado, precisar de constantes confirmações ou viver relacionamentos em estado de alerta. Esses padrões costumam ser construídos ao longo da história de vida, a partir das experiências emocionais que tivemos e das formas que encontramos, ainda muito cedo, para preservar nossos vínculos e nos sentirmos seguros.

Por isso, antes de se julgar por sentir demais, por pensar demais ou por sofrer mais do que gostaria, talvez valha a pena fazer uma pergunta diferente: o que essa ansiedade está tentando proteger? O que hoje aparece como insegurança já foi, em algum momento, uma tentativa de adaptação e sobrevivência emocional.

Reconhecer isso não significa viver preso ao passado ou atribuir a ele todas as respostas. Significa apenas olhar para a própria história com mais compreensão e menos julgamento. E talvez seja justamente nesse ponto que algo novo se torna possível: quando deixamos de nos definir pelos nossos medos e passamos a perceber que, por trás deles, existe uma busca profundamente humana por segurança, pertencimento e amor.


Lays de Almeida – Psicanalista
Siga no Instagram: @layscdealmeida


Leia mais textos de Lays:

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Utilizamos cookies para personalizar anúncios e melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade.