20 de março de 2026
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O feminicídio não começa no dia do crime: como a violência se constrói silenciosamente dentro dos relacionamentos

Quebre o silêncio, procure ajuda psicológica, busque pessoas de confiança, ligue 180. O amor verdadeiro jamais exigirá que você diminua a si mesma para caber nele.

Por Lays de Almeida

Atualizado em 20/03/2026 | 10:22:00

Nos últimos dias, diante de um caso de feminicídio que gerou profunda comoção em nossa cidade, muitas perguntas surgem quase que de forma automática: Como isso aconteceu? Por que ela não saiu antes? Será que não havia sinais?

Esses questionamentos são naturais diante de uma tragédia, mas também revelam algo que ainda precisa ser melhor compreendido socialmente: existe pouco entendimento sobre como a violência dentro de um relacionamento se constrói ao longo do tempo. Muitas vezes imaginamos que situações extremas surgem de maneira repentina, como se fossem resultado de um momento isolado de descontrole, quando na realidade elas costumam ser o desfecho de um processo longo, silencioso e progressivo.

O que do lado de fora pode parecer uma decisão simples “por que não saiu?” do lado de dentro geralmente envolve fragilização psicológica, isolamento, perda de autonomia e um enfraquecimento progressivo da capacidade de reagir.


A raiz histórica e a ilusão do cuidado

Ao longo da nossa história evolutiva e social, estruturamos uma sociedade calcada no controle. Durante séculos, o arcabouço jurídico, religioso e cultural validou a ideia da mulher não como um indivíduo de desejos próprios, mas como uma extensão, uma posse. Para muitos agressores, o controle sobre a parceira é um mecanismo para lidar com as próprias angústias e inseguranças masculinas.

O relacionamento abusivo raramente se apresenta como tal logo no início. Pelo contrário: ele costuma nascer disfarçado de um excesso de zelo. O parceiro se coloca como um protetor, um salvador. No entanto, aos poucos, esse cuidado vira uma teia.


Por que muitas mulheres não conseguem sair de relacionamentos abusivos?

Do ponto de vista psicológico, relacionamentos abusivos costumam gerar um tipo de vínculo emocional muito forte, marcado por dependência, medo e esperança de mudança e quando a violência é intercalada com momentos de carinho, a vítima pode acreditar que o parceiro vai melhorar, que foi apenas um momento de raiva, ou que ela mesma poderia ter evitado a situação.

Com o tempo, a autoestima vai sendo enfraquecida e a mulher pode começar a acreditar que não é capaz de viver sozinha, que ninguém mais vai amá-la, ou que a culpa é dela.

A dependência emocional é frequentemente amarrada à dependência financeira. Ao desencorajar o trabalho da parceira ou controlar seus recursos, o agressor a coloca em um lugar de submissão total. Ela não fica porque gosta de sofrer, ela fica porque foi convencida de que é incapaz de sobreviver no mundo adulto sem a chancela daquele homem e a autoestima é tão triturada que o espaço para o "eu" deixa de existir.


As cinco faces da violência: o que a lei nos ensina

Ainda carregamos o mito de que violência doméstica se resume a hematomas. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é um marco mundial justamente por reconhecer a complexidade dessa dinâmica, tipificando cinco formas de violência:

  • Violência Psicológica
  • Violência Moral
  • Violência Patrimonial
  • Violência Sexual
  • Violência Física

Isso significa que controlar, humilhar, ameaçar, isolar, desvalorizar ou impedir a autonomia da mulher também são formas de violência, mesmo quando não há marcas no corpo.


O feminicídio é o último estágio de um processo

O feminicídio foi incluído no Código Penal brasileiro para reconhecer que matar uma mulher por motivo de gênero, especialmente dentro de relações íntimas, é um crime com características próprias e que exige atenção específica da sociedade e do Estado.

Mesmo com leis mais rígidas e maior conscientização, os números ainda são altos, o que mostra que a prevenção precisa começar antes da agressão física, antes da denúncia e antes do crime.

Começa quando aprendemos a reconhecer sinais como: controle excessivo; ciúmes constantes; isolamento de amigos e família; humilhações frequentes; ameaças, mesmo que veladas; desvalorização; medo dentro da própria relação.

Nenhum relacionamento saudável precisa de medo para existir.


O ciclo do abuso e os números que calam

A psicóloga norte-americana Lenore Walker mapeou o que chamamos de Ciclo da Violência. Ele explica por que é tão difícil romper a teia: o ciclo começa com o aumento da tensão, evolui para a explosão da violência e deságua na fase da lua de mel, onde o agressor chora, jura amor eterno e cobre a vítima de promessas. A mulher, fragilizada, agarra-se a essa esperança, mas o ciclo sempre recomeça, cada vez mais curto e letal.

Os números não nos deixam mentir e atestam a urgência de rompermos esse ciclo. Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados agora em março de 2026, revelam que 2025 foi o ano com o maior número de feminicídios da última década no Brasil, atingindo a marca de 1.568 mortes.

Trazendo para a nossa realidade estadual, um levantamento do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) revelou que, apenas nos primeiros sete meses do ano passado, 106 casos de feminicídio foram julgados, um aumento assustador de 36% em relação ao período anterior. Além disso, mais de 600 mulheres catarinenses recorrem à Justiça toda semana em busca de proteção.

Uma realidade ainda mais cruel se impõe para nós: metade dos feminicídios no país ocorre em cidades com menos de 100 mil habitantes. Em comunidades menores, a proximidade, o medo do julgamento social e o falso moralismo tornam o silêncio ainda mais denso e perigoso, pois a vergonha aprisiona tanto quanto o medo.


Falar sobre isso também é prevenção

Quando um feminicídio acontece, a pergunta não deveria ser apenas “como isso foi acontecer?”, mas também “em que momento isso começou e não foi percebido?”.

Falar sobre violência psicológica, dependência emocional, submissão e desigualdade dentro das relações não é exagero é prevenção, pois quanto mais cedo conseguimos reconhecer os sinais, maiores são as chances de interromper o ciclo antes que ele se torne irreversível.

A violência não começa com o crime, ela começa quando o respeito deixa de existir e o medo passa a fazer parte da relação e é justamente nesse momento que precisamos aprender a prestar atenção.

Se você leu este texto e sentiu o peito apertar por se reconhecer nele, ou se pensou em uma amiga, filha ou vizinha, saiba: o segredo é a maior arma do agressor. Quebre o silêncio, procure ajuda psicológica, busque pessoas de confiança, ligue 180. O amor verdadeiro jamais exigirá que você diminua a si mesma para caber nele.


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Lays de Almeida – Psicanalista
Siga no Instagram: @layscdealmeida

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