09 de fevereiro de 2026
Especiais

Saúde mental passa a ser obrigatória dentro das empresas: NR1 na prática

Quando o sofrimento no trabalho deixa de ser “fraqueza individual”

Por Lays de Almeida

Atualizado em 09/02/2026 | 21:47:00

Durante muito tempo, a saúde mental no ambiente de trabalho foi tratada como algo secundário. Falava-se em motivação, resiliência e inteligência emocional, mas raramente se questionavam as condições concretas que produziam sofrimento. Quando alguém adoecia, a explicação quase sempre recaía sobre o indivíduo.

Esse olhar individualizante sustentou, por anos, uma lógica: ambientes adoecedores seguiam intocados, enquanto trabalhadores carregavam sozinhos o peso de um mal-estar que não haviam criado.

Como psicanalista, observo diariamente que o corpo não mente. O que a boca cala, o sistema nervoso grita em forma de insônia, pânico e Burnout. Mas algo profundo está mudando, pois em 2026, a legislação brasileira dá um passo histórico ao retirar a saúde mental da periferia das discussões e colocá-la no centro da obrigatoriedade legal com a consolidação da nova NR-1.

Os dados do INSS não nos deixam mentir: o crescimento exponencial de afastamentos por transtornos mentais revela que vivemos uma crise de sentido. A  nova NR-1 retira o peso das costas do trabalhador e devolve a responsabilidade para a estrutura organizacional.

O que muda quando a lei reconhece o sofrimento psíquico como risco

As atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) representam uma virada importante nesse cenário. Pela primeira vez de forma explícita, os riscos psicossociais passam a integrar o gerenciamento obrigatório de riscos ocupacionais dentro das empresas.

A grande transformação, que entra em vigor com força total em 26 de maio de 2026, é a inclusão obrigatória dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Isso significa que as empresas passam a ter o dever jurídico de mapear, prevenir e mitigar fatores que causam sofrimento psíquico, como o assédio moral, a carga mental excessiva, a falta de autonomia e a comunicação violenta. Através das Portarias MTE nº 344 e nº 1.419, o Estado reconhece o que a clínica já sabia: o ambiente de trabalho pode ser patogênico.

Sobrecarga de tarefas, metas inalcançáveis, jornadas excessivas, conflitos constantes, assédio moral, falta de autonomia, insegurança no emprego e ausência de apoio institucional deixam de ser vistos como algo “normal" e passam a ser entendidos como fatores que impactam diretamente a saúde mental.

Ao incluir os riscos psicossociais na NR-1, a legislação desloca o cuidado da esfera da boa vontade para a esfera da obrigação legal. A empresa passa a ter o dever de identificar, avaliar e intervir sobre condições de trabalho que geram sofrimento psíquico.

Como isso funcionará na prática?

Uma dúvida comum diante dessa normativa é imaginar que as empresas precisarão oferecer psicoterapia interna ou transformar o local de trabalho em um consultório psicológico, mas não é isso.

A atuação dos profissionais de saúde mental nesse contexto é preventiva, estratégica e coletiva. Eles participam do mapeamento dos riscos psicossociais, da escuta qualificada das equipes, da análise do clima organizacional e da identificação de padrões que favorecem o adoecimento.

Mais do que ouvir queixas individuais, esses profissionais ajudam a traduzir o sofrimento em linguagem técnica, permitindo que ele seja reconhecido institucionalmente. Quando o mal-estar deixa de ser apenas um relato subjetivo e passa a ser documentado como risco ocupacional, ele ganha legitimidade e exige resposta.

Cuidar antes de adoecer: a mudança mais importante

A partir desse diagnóstico, os profissionais contribuem para a construção de medidas preventivas: revisão de fluxos de trabalho, adequação de metas, reorganização de jornadas, mediação de conflitos, criação de protocolos de prevenção ao assédio e capacitação de lideranças.

Aqui está o ponto central da NR-1: o foco não é apenas cuidar de quem já adoeceu, mas evitar que o adoecimento aconteça.

Historicamente, a saúde mental no trabalho era acionada apenas quando surgiam afastamentos, crises ou rupturas. A norma propõe uma mudança de lógica: intervir no contexto antes que o sofrimento se transforme em adoecimento.

Ambientes de trabalho adoecedores não afetam apenas quem está dentro deles. Eles geram afastamentos prolongados, sobrecarregam o sistema de saúde, impactam relações familiares e produzem um sofrimento silencioso que atravessa a vida das pessoas.

Uma reflexão necessária

Como profissional da saúde mental, considero a atualização da NR-1 um avanço importante. Ela nos convida a sair de uma lógica que individualiza o sofrimento e a olhar com mais seriedade para as estruturas que o produzem.

O trabalho sempre exigirá esforço, compromisso e responsabilidade. Mas talvez seja hora de nos perguntarmos: até que ponto normalizamos níveis de desgaste que não deveriam ser considerados aceitáveis?

Se a saúde mental se torna obrigatória, é porque já não é possível ignorar os efeitos do modelo atual, desse modo, prevenir o adoecimento não é apenas cumprir uma norma é assumir que o trabalho não deveria ser, sistematicamente, fonte de sofrimento.


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Lays de Almeida – Psicanalista
Siga no Instagram: @layscdealmeida

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