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Entre couro, cola e memória, Seu Crispin segue dando forma a um ofício — e a uma história que se confunde com a da própria cidade.
São Lourenço do Oeste mudou. Cresceu, se espalhou, se modernizou. Mas, em meio a tantas transformações, alguns lugares seguem firmes como referência de tempo, trabalho e identidade. Um deles é a Sapataria São Crispin, localizada na Avenida Ernesto Beuter, bem em frente ao Nosso Posto Ipiranga — um ponto fácil de encontrar, conhecido por gerações.
Ali está Seu Crispin, como todos o chamam. Aos 77 anos, ele continua na ativa, não por necessidade, mas por escolha. Seu nome de batismo é Decio Vitor Spagnol, mas basta atravessar a porta da sapataria para entender que o apelido virou identidade — e legado.
Natural de Sananduva (RS), Seu Crispin chegou a São Lourenço do Oeste em 1972. Já são mais de 50 anos vivendo na cidade que escolheu para criar os filhos, trabalhar e construir sua história.
O ofício começou cedo. Ainda adolescente, com 14 ou 15 anos, aprendeu a arte da sapataria em Coronel Freitas, com um sapateiro experiente. Depois disso, passou por outros trabalhos, inclusive em serraria, ao lado do pai. Mas o couro, as solas e o conserto minucioso sempre o chamaram de volta.
“Eu vi que trabalhando de empregado a gente fica sempre na mesma”, relembra.
Antes de ter o próprio negócio, Seu Crispin trabalhou por oito anos com outro sapateiro da cidade. Quando decidiu seguir sozinho, contou mais com coragem do que com estrutura. Conversou com um viajante, pediu mercadoria para pagar a prazo e abriu as portas.
O primeiro ponto foi em outro endereço, mas com o tempo, o trabalho permitiu construir o próprio espaço, onde a sapataria funciona até hoje.
“Eu trabalhava demais. Tinha noite que dava 10, 11 horas e eu ainda tava aqui.”
Durante muitos anos, Seu Crispin fabricou botas para venda, especialmente voltadas ao trabalho no campo. Era comum produzir vários pares por dia — e vender tudo. Com o passar do tempo e a mudança do mercado, a fabricação artesanal foi ficando para trás.
Hoje, ele não produz mais botas, mas segue atuando com o mesmo conhecimento e critério, trabalhando com produtos já prontos, sempre ligados à tradição e à durabilidade. Na Sapataria São Crispin, ele comercializa botas e sapatos, além de chapéus, cintos e outros artigos muito utilizados no meio campeiro e nos CTGs, incluindo peças voltadas à encilha de cavalos. Tudo escolhido com o olhar de quem conhece o uso real do produto — não apenas a vitrine.
Do balcão da sapataria saiu muito mais do que consertos e vendas. Saiu sustento, educação e futuro. Pai de três filhos — Airton, Andreia e Silvana —, Seu Crispin viu cada um seguir seu caminho.
As filhas se formaram. Uma atua no serviço público; a outra trabalha em empresa própria com o marido. O filho, mesmo sem formação acadêmica, construiu carreira e hoje é gerente de um pet shop em Curitiba.
“Às vezes quem não é formado ganha até mais”, diz, com simplicidade e orgulho.
Hoje, ele também é avô de dois netos, uma já formada, com 22 anos, e outro de 11, crescendo em um mundo bem diferente daquele que ele conheceu.
Ao longo de mais de 40 anos de sapataria, Seu Crispin viu o ofício se transformar. Antes, quase tudo era couro. Pregos, costura, sola grossa. Hoje, a cola domina.
“Naquela época, uma latinha de taxa durava um mês. Hoje fica ali dois, três anos.”
Ele também acompanhou a mudança no consumo. O conserto deu lugar à troca rápida. O tênis estragou, vai fora. A internet facilitou compras, mas dificultou a vida de quem vive do reparo.
Mesmo assim, ele segue avaliando cada caso com honestidade: há consertos que valem a pena, outros não. O critério nunca foi apenas o dinheiro, mas o valor real do trabalho.
A aposentadoria veio há 15 anos. O descanso, não.
“Eu não consigo ficar em casa.”
O trabalho virou ocupação, rotina e também abrigo emocional. Especialmente depois de uma perda recente e profunda: a morte da esposa, Udila, há cerca de três meses, aos 79 anos, após um procedimento cardíaco.
Sem dramatizar, Seu Crispin fala da saudade com a serenidade de quem entende o tempo. O silêncio da casa pesa mais do que o barulho das ferramentas. A sapataria, hoje, é também um espaço de respiro.
Quem viveu São Lourenço do Oeste antes do asfalto, dos grandes prédios e das redes de lojas, guarda outra paisagem na memória. Seu Crispin lembra quando determinados pontos eram banhado, quando a rodovia não existia e quando aquela região era “o fim da cidade”.
“Desenvolveu muito. Hoje os valores de terreno tão absurdos.”
A cidade cresceu — e ele cresceu com ela.
Quando fala aos jovens, Seu Crispin não romantiza nem condena. Apenas orienta.
“Aprender uma profissão desde novo. Estudar, se formar em alguma coisa. Depois de estudado, aparece.”
É o conselho de quem construiu tudo com as próprias mãos, sem atalhos, sem discursos grandiosos.
A Sapataria São Crispin, não é apenas um ponto comercial. É um lugar onde o tempo anda mais devagar, onde clientes antigos ainda voltam, onde cada par de botas, cada chapéu ou cinto carrega uma história.
Seu Crispin sabe que o ofício está desaparecendo. Mas enquanto tiver força, ele segue ali — não apenas trabalhando, mas mantendo viva uma parte da memória de São Lourenço do Oeste.
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