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Os principais manuais diagnósticos não utilizam categorias temporais para definir ansiedade ou depressão.
Durante muito tempo, frases como “ansiedade é excesso de futuro” e “depressão é excesso de passado” tornaram-se comuns. Elas parecem fazer sentido à primeira vista, pois pessoas ansiosas costumam relatar preocupação com o que ainda não aconteceu e pessoas deprimidas, por sua vez, frequentemente se veem presas a lembranças dolorosas. Mas será que essas frases explicam, de fato, o sofrimento psíquico?
A ciência contemporânea, em diálogo com a clínica, mostra que não. Embora essas ideias possam funcionar como metáforas subjetivas, elas falham quando usadas como explicações causais. Ansiedade e depressão não se organizam apenas em torno do tempo psicológico, elas emergem de uma trama complexa que envolve corpo, história, vínculos, linguagem, ambiente e funcionamento psíquico.
Os principais manuais diagnósticos não utilizam categorias temporais para definir ansiedade ou depressão. Isso ocorre porque estudos clínicos demonstraram que a relação com o tempo não explica, por si só, o surgimento nem a manutenção desses quadros. Quando a metáfora do tempo é tomada como explicação, corre-se o risco de reduzir o sofrimento psíquico a um problema de “postura mental”, desconsiderando fatores biológicos, relacionais e históricos mais profundos.
Ansiedade: quando o corpo reage antes do pensamento
Do ponto de vista científico, a ansiedade está relacionada a sistemas cerebrais responsáveis pela detecção de ameaça e pela resposta ao estresse. Muitas dessas reações acontecem de forma automática, anterior à elaboração consciente.
Isso ajuda a compreender por que nem toda ansiedade está ligada a pensamentos sobre o futuro. Há pacientes que relatam crises de ansiedade “sem motivo aparente”, nas quais o corpo entra em estado de alerta antes que qualquer preocupação seja identificada. A ciência mostra que, nesses casos, não se trata de excesso de futuro, mas de um sistema nervoso que aprendeu, muitas vezes precocemente, a viver em estado de vigilância.
Estudos genéticos também apontam que existe uma predisposição biológica para transtornos de ansiedade. Essa vulnerabilidade, no entanto, só se manifesta plenamente em interação com o ambiente: experiências de insegurança, trauma, negligência emocional ou estresse crônico podem consolidar esse padrão de funcionamento.
Depressão: para além da ruminação sobre o passado
A depressão é frequentemente associada à ruminação, isto é, à repetição persistente de pensamentos negativos. Ainda assim, a ciência é clara ao afirmar que a ruminação não é a causa da depressão, mas parte de sua engrenagem.
Pesquisas mostram que a depressão envolve alterações neuroquímicas, inflamatórias e hormonais, além de mudanças na motivação, no sono e na capacidade de sentir prazer. Esses processos afetam a forma como o sujeito se relaciona com o tempo: o passado pode se tornar mais pesado, o presente esvaziado e o futuro empobrecido.
Do ponto de vista psicanalítico, a depressão não se reduz a um apego ao passado, mas pode ser compreendida como um modo específico de relação com a perda muitas vezes uma perda que não foi simbolizada, elaborada ou reconhecida. Nesse sentido, o sofrimento não está no passado em si, mas na forma como ele permanece operando no presente psíquico.
Uma leitura psicanalítica em diálogo com a ciência
A psicanálise contribui para essa discussão ao mostrar que o inconsciente não obedece à lógica linear do tempo cronológico. Experiências precoces, vínculos primários e marcas afetivas podem continuar atuando no presente como se fossem atuais. Isso não significa “viver no passado”, mas estar atravessado por algo que não pôde ser simbolizado.
Na clínica, observa-se que tanto a ansiedade quanto a depressão estão frequentemente ligadas a conflitos psíquicos, formas de defesa e modos de relação com o outro. A ansiedade pode surgir como um sinal de que algo interno ou externo está ameaçando o equilíbrio emocional da pessoa e a depressão pode aparecer quando há uma ruptura na capacidade de investir afetivamente na vida e nos vínculos, ou quando a perda é vivida de forma tão intensa que passa a fazer parte da própria identidade da pessoa.
Essas leituras não se opõem à ciência, mas a complementam. Elas ajudam a compreender por que dois sujeitos, expostos a situações semelhantes, podem adoecer de formas tão distintas.
Na clínica, esse tipo de simplificação pode gerar culpa, frustração e sensação de fracasso terapêutico. Já uma compreensão multifatorial amplia as possibilidades de escuta e intervenção.
Conclusão:
Ansiedade e depressão não são excesso de futuro ou de passado e sim formas de sofrimento que atravessam o corpo, a história e os vínculos, muitas vezes para além do que pode ser nomeado. O tempo psíquico importa, mas não explica tudo.
Quando abandonamos metáforas fáceis, abrimos espaço para uma escuta mais ética e cuidadosa, uma escuta que não apressa respostas nem culpa o sujeito por sua dor. Talvez o verdadeiro deslocamento não seja no tempo, mas no olhar: da simplificação para a complexidade, da explicação para a escuta.
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Lays de Almeida – Psicanalista
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