11 de setembro de 2026
Segurança

Quem é médica condenada por dar falsos diagnósticos de câncer de pele e solicitar cirurgias desnecessárias no Paraná

Carolina Fernandes Biscaia foi condenada a 11 anos e 8 meses de prisão. Ela se apresentava como dermatologista, mas não tinha registro da especialidade.

Por G1 Paraná

Atualizado em 11/09/2026 | 10:51:00

A médica Carolina Fernandes Biscaia, de Pato Branco, no Sudoeste do Paraná, se apresentava nas redes sociais como dermatologista, embora não tivesse registro da especialidade nos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) do Paraná e de São Paulo.

Em seu perfil, que tinha mais de 17 mil seguidores, ela também dizia atuar com saúde em geral, com foco em oncologia cutânea e embelezamento da pele.

Carolina começou a ser investigada em março de 2024, quando pacientes suspeitaram de procedimentos cirúrgicos solicitados por ela. Leia mais a seguir.

Na quinta-feira (10), a médica foi condenada a 11 anos e 8 meses de prisão por exercício ilegal de atividade profissional, 21 crimes de lesão corporal e 32 crimes de estelionato.

A defesa da médica afirmou que a decisão de primeiro grau reconheceu parcialmente os pedidos e disse que irá recorrer da decisão.

Como o caso começou
Carolina começou a ser investigada em março de 2024, depois que pacientes passaram a suspeitar dos procedimentos cirúrgicos solicitados por ela.

Ao menos 38 pessoas que se apresentaram como vítimas foram ouvidas durante a investigação. Em parte dos casos, porém, a Justiça entendeu que não havia provas suficientes para condenação.

Segundo o Ministério Público, o prejuízo financeiro causado às vítimas foi estimado em cerca de R$ 130,4 mil.

A investigação apontou que a médica emitia diagnósticos de câncer de pele que não eram confirmados posteriormente e solicitava procedimentos cirúrgicos considerados desnecessários.

Em consulta no site oficial do Conselho Federal de Medicina, o registro da médica aparece em situação "regular".

O g1 questionou ao Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) se a médica é alvo de algum processo administrativo que apura a conduta dela ou se está, de alguma forma, impedida de exercer a profissão.

Em nota, o órgão não respondeu às perguntas e afirmou que "sindicâncias e os processos ético-profissionais tramitam em sigilo processual".

"Caso seja identificada alguma irregularidade e comprovada a violação da ética profissional, as sanções podem variar de advertência à cassação do exercício profissional", afirmou o CRM-PR.

Em março de 2024, o CRM-PR puniu a médica com a chamada "censura pública" por anunciar ter especialidades que não possui. Em maio daquele ano, uma Interdição Cautelar Total de 180 dias foi determinada pelo CRM-PR e aprovada pelo Conselho Federal de Medicina, e impedia a médica de exercer a profissão.

Em consulta ao site do conselho, não são encontradas especialidades atribuídas à Biscaia. Nas redes sociais, a médica afirmava ser dermatologista.

'Forte pressão psicológica'

As investigações conduzidas pela Polícia Civil apontaram que a médica agia sozinha e fazia uma "forte pressão psicológica" para que os procedimentos fossem feitos dentro do consultório, logo após ela dar os falsos diagnósticos.

As investigações identificaram que a médica examinava pintas e manchas dos pacientes e afirmava que algumas poderiam ser cancerígenas. Ela, então, fazia retirada de material e encaminhava para laboratório.

Na reconsulta, ela apresentava ao paciente um laudo falso com diagnóstico de câncer de pele. Segundo as investigações, a perícia em exames que estavam no consultório, bem como entregues pela médica a pacientes, mostrou que a falsificação era feita com máquina de xerox, no próprio consultório.

Além disso, a investigação apurou que documentos falsos eram colocados sobre os verdadeiros e, com a ajuda do equipamento, eram criadas novas versões de laudos.

Médica comemorou retirada de falso melanoma em áudio

Um áudio que compôs as investigações mostra o momento em que a médica comemorou a retirada de um falso melanoma – tipo de câncer de pele mais agressivo – de uma paciente.

"Não sei se você é católica ou não, mas passa na igreja, agradece a Deus.

Tem coisas assim que a gente tem que agradecer, sabe? Tem que agradecer, porque, como eu disse, a chance de pegar assim (melanoma), nesse estágio em que a gente só amplia a margem e está curada, é uma dádiva [...]. Não precisa se preocupar com metástase", afirmou a médica.

A vítima contou que descobriu o falso diagnóstico após encontrar inconsistências no laudo apresentado por Carolina, comparando com o documento retirado por ela diretamente no laboratório.

Depois da descoberta, a gravação passou a ser prova para investigação.

A pedido da médica, ela passou pelo procedimento chamado de ampliação de margens. No caso dela, a falsa doença foi identificada na perna esquerda.

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