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Kauan da Silva Titon, de 14 anos, morador de Florianópolis, perdeu a audição aos 6 anos de idade. O menino passou por uma cirurgia de implante coclear em maio deste ano.
Um menino de 14 anos não conteve a emoção ao ouvir a voz da mãe pela primeira vez após oito anos sem escutar nada em Florianópolis (assista acima).
Kaua da Silva Titon perdeu a audição aos 6 anos, após uma crise de epilepsia e, contrariando as expectativas, voltou a escutar em maio deste ano, após passar por uma cirurgia de implante coclear. O caso é considerado uma “sequência de milagres” pela mãe do adolescente, Ana Cristina da Silva, de 43 anos, que teve uma gestação de alto risco.
Kauan nasceu prematuro, quando Ana estava no 7º mês de gravidez, em um parto de urgência. Portadora de lúpus, ela descobriu a gravidez já no quarto mês, após ter passado por exames invasivos, como raio-x e tomografias, sem saber que esperava o filho.
Embora tenha nascido saudável, o menino teve complicações respiratórias que causaram o rompimento de veias no cérebro, provocando uma hemorragia grave. Ele ficou internado por 63 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal.
Os médicos chegaram a avisar a mãe de que o bebê não passaria de uma determinada noite e que, caso sobrevivesse, ficaria tetraplégico.
Menino perdeu a audição aos 6 anos
Kauan sobreviveu, cresceu e anda perfeitamente. Aos 6 anos, entretanto, uma nova reviravolta mudou a rotina da família. O menino acordou completamente surdo após sofrer uma crise de epilepsia durante o sono.
“Ele adorava acordar e ir para a creche. Eu trabalhava e o meu marido é quem o levava e o colocava na van. Só que nesse dia a gente achou estranho porque ele não acordou espontaneamente. O meu marido foi lá chamá-lo, ele acordou, só que acordou todo perdido, não sabia mais o que a gente estava falando, porque já não estava escutando”, diz a mãe.
No aniversário de 14 anos, após anos vivendo no silêncio, o menino surpreendeu os pais ao erguer um pedaço de bolo para o céu e pedir a Jesus que lhe devolvesse a audição.
“Ele saiu da cozinha, foi até a porta da sala, ergueu o pedaço de bolo e conversou com Jesus. Disse que não queria ser surdo, que queria escutar. Aquilo comoveu todos nós, porque a gente não esperava isso dele”.
Sonho realizado
Após o pedido do filho, Ana insistiu com a equipe médica para tentar o implante coclear — um dispositivo eletrônico que estimula o nervo auditivo.
Mesmo ciente dos riscos de a cirurgia não funcionar devido à antiga lesão cerebral, ela assinou os termos e colocou o nome de Kauan na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) em fevereiro deste ano. O adolescente foi chamado para cirurgia em menos de três meses.
"Eu estava descendo a rua para levar ele à escola quando o telefone tocou. A moça do Hospital Universitário perguntou se ele poderia internar no dia seguinte. Nós três choramos tanto no meio da rua que ninguém ao redor entendia nada", relembra Ana.
Segundo o otorrinolaringologista André Maranhão, médico de Florianópolis, a tecnologia revolucionou o tratamento da surdez profunda, sendo considerada a prótese médica mais bem-sucedida na história da medicina (veja mais abaixo).
Atualmente, o adolescente passa por um processo semanal de mapeamento e fonoaudiologia no HU para regular o volume do implante. Como o cérebro precisa se acostumar gradativamente com as novas frequências sonoras, Kauan está, na prática, aprendendo a decifrar os sons do mundo novamente.
“O que eu quero dizer com tudo isso é que é uma verdadeira superação. O impossível aconteceu, porque meu filho não tinha possibilidades clínicas de ouvir por causa da hemorragia cerebral", comemorou a mãe.
Como funciona a tecnologia que mudou a vida de Kauan
O médico André Maranhão explica que o implante coclear é uma prótese semi-implantável e funciona de forma totalmente diferente de um aparelho convencional, que apenas amplifica as ondas sonoras que chegam ao tímpano.
No implante, há um componente cirúrgico que fica por baixo da pele e outro externo, atrás da orelha, conectados por um ímã.
"O implante coclear faz realmente o papel da cóclea. A parte externa, chamada processador de fala, capta e digitaliza o som, enviando-o para a unidade interna. Essa unidade transforma as informações em energia elétrica que vai estimular diretamente o nervo da audição através de eletrodos dentro da cóclea. Ele emite um sinal muito potente e com qualidade diretamente para o nervo, não dependendo da passagem pela cóclea", detalha o otorrinolaringologista.
De acordo com o médico, o fato de Kauan ter perdido a audição aos 6 anos de idade, e não ter nascido surdo, pesou a favor do sucesso do procedimento.
"Nesse tempo de privação sonora, quanto menor, melhor. O estímulo auditivo é um estímulo cognitivo importante. A audição é conexão com o mundo e com as pessoas, e dentro do cérebro ela faz diversas conexões com memórias e áreas cognitivas. Na realidade, a gente escuta com o nosso cérebro; o ouvido é só um captador e um transformador de sinais".
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