30 de maio de 2026
Segurança

Como menina picada por cobra com veneno entre os piores do país sobreviveu a choque anafilático em SC

Criança de 4 anos foi picada dentro de casa pela serpente, que possui peçonha neurotóxica. Segundo a mãe, Jéssica Schutell, a menina teve reações alérgicas graves e potencialmente fatais.

Por G1Santa Catarina

Atualizado em 30/05/2026 | 11:25:00

Uma menina de 4 anos foi picada por uma filhote de cobra-coral verdadeira, uma das espécies mais venenosas do país, ao brincar com o irmão em Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina.

Segundo a mãe, Jéssica Schutell, a criança sobreviveu a choques anafiláticos – o ponto mais agudo de uma reação alérgica, que pode levar à morte em pouco tempo. A picada aconteceu após o irmão confundir a serpente, que tem uma peçonha neurotóxica - ou seja, que ataca o sistema nervoso - com uma minhoca.

Segundo o médico alergista Júlio César, do Centro Clínico Órion Complex, o choque anafilático é a forma mais grave de alergia, cuja reação é sistêmica, rápida e potencialmente fatal.

"Ela acontece quando a reação alérgica deixa de ser apenas na pele, por exemplo, e passa a comprometer órgãos importantes, principalmente a parte respiratória e a circulatória" (veja mais abaixo).
No caso ocorrido em 25 de abril, o atendimento veloz da equipe médica foi crucial para salvar a vida da pequena Olívia, de acordo com Jéssica, que saiu às pressas de casa com a filha e o marido.

O herpetólogo Tobias Kunz explica que o envenenamento por corais é um dos mais perigosos do país pelo risco de evoluir rapidamente para quadros graves (leia mais abaixo).

"Foi tudo muito rápido e acredito que foi isso que ajudou a recuperação dela ser tão rápida também", comentou.
Como aconteceu?
O caso aconteceu após o filho mais velho ver os gatos brincando com a cobra no terreno de casa.

"Pegou ela pelo rabo e trouxe para dentro de casa, falando que era uma minhoca. Eles ficaram alguns minutos observando a tal minhoca", comentou.

Depois, ele colocou a cobra em cima das pernas da irmã. A mãe suspeita de que a filha tenha se assustado e apertado o animal, que respondeu com uma picada no calcanhar.

"Na hora, meu marido já viu que era uma cobra-coral. Peguei ela e documentos, ele pegou um pote e capturou a cobra. Saímos às pressas para o primeiro pronto-atendimento que havia". Lá a criança foi atendida pela primeira vez e, em seguida, foi encaminhada de ambulância até um hospital.

Segundo o documento de transferência, ao qual o g1 teve acesso, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (CIATox/SC) confirmou se tratar de uma coral-verdadeira.

"A gente foi atendido muito rápido. Todos foram muito prestativos. Chegamos com a cobra e já entramos direto e todos os médicos já correram para os primeiros-socorros", relatou.

Menina sofreu choques anafiláticos
O primeiro choque anafilático, segundo a mãe, ocorreu ao iniciar a aplicação do antídoto para neutralizar o veneno da coral. Ela ficou "totalmente inchada", segundo a mãe, e com a respiração comprometida. Também vomitava muito.

Olívia foi transferida para a ala vermelha do hospital, onde permaneceu até finalizar o antídoto.

"Foi tendo reações alérgicas até o final desse soro. Cada reação era diferente. Em todas as três crises foram usadas adrenalina e antialérgicos", disse.
A criança ficou três dias no hospital. Depois, foi necessário mais uma semana em casa para se recuperar totalmente e voltar à rotina normal.

Segundo o médico Júlio César, pacientes podem ter sequências de reações anafiláticas (reação alérgica grave) em alguns contextos.

"Em algumas situações, a pessoa pode melhorar do processo da anafilaxia e, horas depois, voltar a apresentar sintomas - a gente chama isso de reação bifásica. Também pode acontecer da reação ser prolongada ou de difícil controle, exigindo um atendimento médico, observação mais de perto", comentou.
"Tecnicamente, a anaflaxia pode acontecer mesmo antes da pessoa entrar em choque. O choque é quando existe uma repercussão circulatória cardiovascular, como uma queda de pressão, desmaio, palidez, confusão, fraqueza intensa ou sinais de má circulação", completou.

Veneno potente
O biólogo Christian Raboch Lempek, da Fundação Jaraguaense de Meio Ambiente (Fujama), disse que a cobra-coral verdadeira tem um dos venenos mais potentes entre as serpentes do país.

"Ela é da família Elapidae. Todos esses animais têm uma peçonha poderosíssima, com baixo peso molecular, que se espalha rapidamente pelo corpo e age diretamente no sistema nervoso", explica.

De acordo com ele, diferente de espécies que dão bote, acidentes com coral costumam ocorrer apenas se o animal for machucado de alguma forma.

O herpetólogo Tobias Kunz, adiciona que, no Brasil, há cerca de 30 espécies do gênero Micrurus, e que entre elas há algumas diferenças na composição do veneno. Todas, no entanto, tem ação principalmente neurotóxica.

"Seu veneno tem ação principalmente neurotóxica, afetando o sistema nervoso central e paralisando rapidamente suas presas. No caso de acidentes com pessoas, esse efeito neurotóxico pode levar à parada cardiorrespiratória, e, portanto, evoluir mais rapidamente para um quadro grave, em comparação com acidentes com jararacas, por exemplo, os mais frequentes no país", explica.

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