Foto: Reprodução/ Arquivo
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O ciclista Isac Emanuel Ribeiro da Silva, de 35 anos, morto após ser atropelado na RS‑115, em Três Coroas, havia oficializado ainda em vida a vontade de ser doador, o que facilitou para a família seguir adiante com a doação.
O atropelamento, que aconteceu no último dia 21, também vitimou a esposa de Isac, Clarissa Felipetti, e a amiga Fernanda Barros. As duas mulheres morreram no local do acidente, já o homem foi encaminhado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos.
Isac teve a morte cerebral confirmada e, segundo o Colégio Notarial do Brasil, o registro prévio realizado por ele foi apontado pelos familiares como determinante para seguir adiante com a doação.
A esposa dele, Clarissa, acompanhou o marido quando o casal decidiu oficializar a medida.
O ciclista fazia parte de um grupo de 336 moradores de Três Coroas que, desde 2023, procuraram o Cartório de Notas para declarar a intenção de doar órgãos.
Sistema digital agiliza registro
O documento, chamado de Escritura Pública Declaratória de Doação de Órgãos, pode ser feito presencialmente ou de forma online.
Desde abril de 2024, qualquer cidadão pode registrar de graça e de forma totalmente digital o desejo de ser doador. A ferramenta, chamada Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo), foi criada pelo Colégio Notarial do Brasil em parceria com o Conselho Nacional de Justiça e o Ministério da Saúde. No Rio Grande do Sul, 1.676 pessoas já utilizaram o serviço.
A formalização em cartório para quem deseja doar órgãos começou de forma pioneira no estado em 2022. A iniciativa oferece ao cidadão uma forma oficial, gratuita e acessível de declarar a própria vontade.
Como funciona
O processo é simples:
O interessado acessa o site;
Emite gratuitamente um Certificado Digital Notarizado;
Participa de uma videoconferência com um tabelião;
Assina eletronicamente a autorização, indicando quais órgãos pretende doar.
A informação fica registrada na Central Nacional de Doadores de Órgãos e pode ser consultada por profissionais habilitados do Sistema Nacional de Transplantes. A autorização também pode ser cancelada a qualquer momento.
O motorista do carro envolvido no acidente foi indiciado por triplo homicídio triplamente qualificado por ter sido cometido com meio cruel. O homem, identificado como José Carlos Almeida Bessa, foi preso preventivamente após fugir sem prestar socorro e ser encontrado em casa após deixar a placa do veículo no local do acidente.
Ainda há os agravantes de impossibilidade de defesa das vítimas e geração de risco comum — o motorista teve dolo eventual, ou seja, quando assume risco de matar, conforme o delegado.
O homem investigado responderá, também, por crimes de trânsito de embriaguez ao volante e condução de veículo automotor sem carteira de habilitação, gerando risco de dano.
Procurada, a defesa de Bessa informou que não teve acesso ao inquérito e não irá se manifestar.
Isac foi velado em Três Coroas
O corpo de Isac foi velado na quarta-feira (26) no Ginásio Municipal Armando Brusius , em Três Coroas.
"O Isac era surreal. Um amigo extremamente divertido. Ele era sempre alegre, não tinha pessoa triste do lado dele", define Cleria Diel, policial penal e amiga do ciclista.
Isac era corretor de imóveis e sócio de uma imobiliária em Três Coroas. A empresa publicou uma nota de pesar lamentando o falecimento.
"Isac foi um homem íntegro e generoso, pai exemplar, esposo dedicado e amigo leal. Sua partida deixa um vazio imenso em todos nós", diz a postagem.
A Associação Igrejinhense de Ciclismo também lamentou a morte, destacando a paixão de Isac pelo ciclismo.
"A bicicleta não era apenas um meio de transporte para Isac — era sua paixão, seu refúgio, sua alegria. Pedalar era o esporte que ele mais amava, o momento em que se sentia livre, conectado com a vida e com a natureza", diz.
As outras vítimas
Clarissa Felipetti era mais conhecida como Sissa. Formada em Educação Física e Publicidade e Propaganda, ela já havia trabalhado como assessora de imprensa na Prefeitura de Três Coroas e, atualmente, atuava como fotógrafa e no setor de marketing de uma empresa. Ela tinha dois filhos com Isac.
Fernanda Mikaella da Silva Barros era natural de Minas Gerais e trabalhava em uma empresa calçadista da região. Em nota, a companhia lamentou a perda.
"Fernanda não era apenas uma profissional dedicada e comprometida, ela era verdadeiramente parte da nossa família. Com seu jeito doce, seu sorriso sempre presente e sua disposição em ajudar, marcou a vida de todos", diz o comunicado.
O caso é investigado pela Polícia Civil como triplo homicídio doloso no trânsito. Uma testemunha ouvida pelos agentes disse que viu o motorista deixando uma casa noturna e conduzindo o carro em zigue-zague.
O suspeito é José Carlos Almeida Bessa. Ele teria fugido do local após a colisão, mas deixou a placa dianteira do carro em meio aos destroços. A polícia identificou o veículo, emplacado em Gramado.
Com base nessas informações e com o auxílio do sistema de cercamento eletrônico, que acusou as passagens do veículo, a Brigada Militar (BM) localizou o motorista. Ele foi preso na casa dele, em Três Coroas. O teste do bafômetro confirmou que o motorista estava alcoolizado.
A defesa de José Carlos disse que está comprometida em assegurar que os fatos "sejam apurados de forma justa, técnica e dentro dos limites da lei" e informou que está colaborando com as investigações.