17 de março de 2026
Segurança

Prática que associa boi a símbolo do mal resulta em 40 indiciados por maus-tratos em SC

Entre os suspeitos de atuar com Farra do Boi foram identificados participantes, organizadores, financiadores, transportadores e vendedores dos animais.

Por G1/SC

Atualizado em 17/03/2026 | 12:33:00

A Polícia Civil indiciou 40 homens por participação em eventos relacionados à Farra do Boi, em Governador Celso Ramos, no Litoral Norte de Santa Catarina. A prática, de raízes culturais entre descendentes açorianos, associa o boi à figura do mal e ocorre principalmente na Quaresma (período de 40 dias antes da Páscoa no cristianismo).

O grupo pode responder na Justiça pelos crimes de maus-tratos a animais e associação criminosa, após mais de um ano de investigação. No total, a Polícia Civil apurou 22 ocorrências sobre o crime, algumas que foram descobertas ao longo das apurações.

O ritual trazido por imigrantes açorianos ao litoral do estado se baseia em soltar um boi em local ermo e cercado de pessoas, que provocam o animal para que ele corra atrás dos envolvidos até chegar à exaustão.
Entre os indiciados, foram identificados participantes, organizadores, financiadores, transportadores e vendedores dos animais, sendo identificado o envolvimento, inclusive, de um vereador do município. A informação foi divulgada pela Polícia Civil na segunda-feira (16).

Os nomes dos indiciados não foram divulgados. O g1 procurou a Câmara de Vereadores de Governador Celso Ramos e aguardava retorno até a última atualização desta reportagem.

Organizadores arrecadavam 'vaquinhas'
Durante a investigação, a delegacia descobriu a existência de grupos organizados para a arrecadação de valores, chamadas "vaquinhas". O dinheiro era destinado para a compra de animais e ao pagamento de advogados e de multas administrativas aplicadas aos participantes.

"A configuração de associação criminosa foi reforçada pela repetição de nomes na articulação de aquisição e transporte do animal, com rateio de valores até mesmo de prejuízos, demonstrando uma divisão de tarefas estruturada", disse a Polícia Civil em nota.

Contexto histórico

Conforme o historiador Francisco do Vale Pereira, a figura do boi ou do touro está presente em diversas sociedades e culturas ao redor do mundo. Em Santa Catarina, segundo ele, a prática da farra do boi foi comum no passado, especialmente nas comunidades do litoral catarinense.

Pereira ressalta que essa manifestação não possui relação com a figura de Judas, mas sim com a representação simbólica do demônio ou do mal.

"Se praticava essas brincadeiras e esse grande desafio de, digamos, transportar, de identificar naquela figura do animal, a figura do demônio, do poder, do mal. A associação não é direta ao Judas, mas sim ao demônio. Não, não tem nada a ver com Judas. A malhação do Judas, inclusive, é uma tradição cristã, religiosa, de muitos povos que tem a ver exclusivamente com aquele que foi o traidor", explica.

O historiador Rodrigo Rosa também destaca que a prática é antiga na região e está ligada às culturas latinas e às tradições tauromáticas, que são técnicas que envolvem os animais, e foram trazidas pelos colonizadores açorianos no século XVIII. Para o pesquisador, o evento ocorre perto da Páscoa por se relacionar ainda com o término da proibição católica de consumir carne na Quaresma.

"As comunidades criavam esse boi para poder comemorar a nova data, a queda da proibição da Quaresma, e aí sim poder comer o boi. Então, mistura as origens das tauromaquias, que é a relação de força do homem com a natureza, com o catolicismo, que impede de comer carne ao longo da Quaresma, e vai culminar com esse evento que ocorre na Semana Santa", explica.ax

O pesquisador ainda destacou que o julgamento sobre prática surgiu especialmente com a chegada de populações externas ao litoral catarinense, que passaram a estranhar e considerar violenta a manifestação. Rosa lembra ainda que, por muitos anos, a prática foi conhecida como boi na corda, tradição que permanece em vigência no arquipélago dos Açores.

Operação Quaresma

No fim de fevereiro, o governo de Santa Catarina lançou a Operação Quaresma na tentativa de combater a prática, que é crime conforme lei nacional, desde 1998.

Outra norma, desta vez estadual, trata especificamente sobre essa prática ilegal, a lei número 17.902/2020. Ela estabelece punições para os participantes:

Multa de R$ 20 mil para pessoas que promoverem ou divulgarem a farra do boi;
Multa de R$ 10 mil para participantes, comerciantes dos animais, proprietários dos veículos de transporte para a prática ou dono do imóvel onde ocorrer a farra;
Em ambos os casos, o valor é dobrado em caso de reincidência.

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