02 de março de 2026
Gerais

Como não cair no golpe do falso advogado? Especialistas explicam esquema que usa dados reais para enganar clientes

Fraude já registra 48 ocorrências diárias no RS. Vítimas são persuadidas a fazer pagamentos, resultando em perdas financeiras expressivas.

Por G1/RS

Atualizado em 02/03/2026 | 10:49:00

Mensagens enviadas pelo celular com foto, nome e até a imagem do suposto advogado têm enganado moradores em todo o RS. Do outro lado da tela, golpistas afirmam que o valor de uma ação será liberado para convencer vítimas a fazer pagamentos. A abordagem, que imita comunicações reais, faz parte de um dos golpes que mais crescem no Rio Grande do Sul: o do falso advogado.

A prática, segundo a Polícia Civil, já figura entre os cinco estelionatos mais registrados. São 48 ocorrências por dia, e o número só aumenta desde outubro do último ano.

Como funciona o golpe

Os golpistas se passam por um advogado verdadeiro. Para isso, usam recursos cada vez mais sofisticados: além de foto e nome reais, criminosos têm acesso a dados pessoais das vítimas, informações completas dos processos e até conteúdo interno do sistema de tramitação, como peças e documentos.

Há casos em que os estelionatários enviam vídeos com imagem e voz do advogado, produzidos com inteligência artificial.

A estratégia é simples: convencer o cliente de que está falando com o escritório real, informando que houve decisão favorável no processo. Depois disso, pedem que ele faça algum procedimento bancário, baixe aplicativos ou clique em links. É nessa etapa que o prejuízo acontece.

Dados de advogados também viram alvo

Segundo o presidente da OAB de Caxias do Sul, Maurício Rugeri Grazziotin, a subseção recebe cerca de 80 reclamações por mês de profissionais que tiveram nome e imagem usados pelos golpistas.

A entidade prepara um relatório para enviar à Meta (dona de WhatsApp, Facebook e Instagram) com provas da utilização indevida dessas identidades. A ideia é pressionar por mecanismos mais rigorosos de proteção e checagem.

Advogados de outras regiões relatam o mesmo cenário. O que mais preocupa, segundo eles, é o fato de criminosos conseguirem acessar informações detalhadas dos processos, o que dá aparência de legitimidade à conversa.

Impacto na confiança e na rotina dos escritórios

Para quem atua na área jurídica, o golpe também arranha a credibilidade da categoria.

"Clientes nos procuram diariamente perguntando se realmente ganharam a causa", relata a advogada Jaqueline Roberto. Ela afirma que a situação gera insegurança sobre o trabalho dos profissionais e até sobre o próprio sistema de Justiça.
A advogada Martina Mariano Spanemberg explica por que tantos caem no golpe: muitos clientes esperam anos por uma decisão, o que os deixa vulneráveis à notícia de vitória na ação.

"Eles mexem com a expectativa do cliente. Enviam PDFs com o nome dele, documentos que parecem oficiais. É muito convincente", diz.

Vítimas relatam prejuízo emocional e financeiro

Os golpes têm causado perdas significativas. Margarete Mondstock Rufatto, de Caxias do Sul, que aguardava o pagamento de um seguro para o qual contribuiu após ficar inválida, perdeu R$ 60 mil depois de acreditar que falava com sua advogada.

"Eles sabiam tudo sobre mim. Nome, CPF, causa, até dados da minha conta", relata. O banco não conseguiu recuperar o valor.
Em Ijuí, outra mulher teve as contas acessadas após baixar um aplicativo enviado pelos criminosos. Ela perdeu R$ 9 mil.

Outra vítima, que tinha um processo em segredo de Justiça, perdeu R$ 15 mil só apertando “ok” em uma solicitação enviada pelos golpistas. O prejuízo poderia ter sido maior se o banco não tivesse bloqueado a movimentação suspeita.

O que dizem as autoridades

Para o delegado regional Ricardo Miron, o golpe provoca não só dano financeiro, mas também emocional. Ele explica que as equipes investigam para tentar identificar os grupos responsáveis e evitar novas vítimas.

O Tribunal de Justiça afirma que divulga alertas sobre o golpe, mas só pode agir nos casos que chegam para julgamento.

Nesta semana, a OAB gaúcha e a Polícia Civil lançaram uma campanha de orientação. O chefe da instituição, delegado Heraldo Chaves Guerreiro, diz que o objetivo é reduzir o número de vítimas em um ambiente que ainda é novo para muita gente: o celular e os aplicativos de mensagens.

A OAB/RS informou ainda que já recebeu mais de duas mil denúncias de profissionais afetados e entrou com ação contra a Meta. A entidade pede mais rigor na verificação de fotos de perfil e uma indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos.

Como se proteger

Especialistas e autoridades reforçam algumas recomendações:

Desconfie de mensagens sobre supostos valores liberados;
Evite tratar questões jurídicas apenas por celular;
Procure seu advogado pelos canais oficiais ou presencialmente;
Nunca baixe aplicativos enviados por links;
Registre boletim de ocorrência, principalmente quando houver prejuízo financeiro.

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