Utilizamos cookies para personalizar anúncios e melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade.
Em depoimento ao GLOBO, Joana Maria Martins, mãe de Eliseu, relata o desespero com a falta de informações e a impossibilidade de um sepultamento no Brasil
Meu filho se chamava Eliseu Pereira Martins. Na Ucrânia, o nome de guerra dele era Martins. Ele tinha 32 anos e faria 33. Antes de ir para lá, já estava havia cerca de um ano em Bruxelas, na Bélgica, e nós nos falávamos praticamente todos os dias.
Eliseu era aquele filho que às vezes ligava só para dizer: “Mãe, não estou ligando para nada, só para falar que te amo.”
Foi no fim de janeiro que ele me contou que queria ir para a Ucrânia.
Na hora pensei na guerra. “Deus me livre e guarde. Nem em sonho. Você quer matar sua mãe do coração?” Foi então que ele revelou uma coisa que eu nem sabia: tinha o sonho de entrar para a carreira militar. Eu dizia que ele nunca tinha sido soldado, nem pegado num fuzil, que iria para lá para morrer de graça.
Mas ele dizia que havia outras funções, que poderia ser cozinheiro, resgatar corpos ou trabalhar na reconstrução das cidades.
Eliseu estava ilegalmente na Bélgica e dizia que, com um contrato na Ucrânia, finalmente teria documentos. Era uma oportunidade de trabalhar sem precisar se esconder e, ao mesmo tempo, realizar aquele sonho.
Quando eu ainda resistia, usou comigo uma coisa que eu mesma tinha ensinado aos meus filhos: “A senhora sempre falou que a gente só morre no dia determinado por Deus.
Se for o meu tempo, eu vou agora. Se não for, eu vou voltar.” O que eu podia responder? Era aquilo que eu tinha ensinado.
Acabei apoiando porque era meu filho.
Ele chegou à Ucrânia no dia 4 de março. No começo mandava fotos, contava tudo. Dizia que as coisas estavam dando certo. “Mãe, estou até ficando com medo, porque para mim as coisas nunca dão certo e agora está dando tudo certo.
Será que é uma porta que Deus abriu para mim?” Eu respondia que não sabia. Como uma mãe poderia saber?
Poucos dias depois, o telefone dele estragou. No dia 12 de março, ligou do aparelho de um colega.
O contrato já estava assinado. Foi então que me contou aquilo que eu não esperava ouvir: “Mãe, eu vou ficar na linha de frente.” Perguntei como aquilo era possível, se ele tinha ido falando em reconstrução e outras funções.
Ele respondeu: “Depois que assina o contrato, a gente não manda.
A gente obedece.”
Último áudio
Eu chorei desesperadamente. Chorei, chorei, chorei. Costumo dizer que naquele dia saiu quase toda a água que havia no meu corpo. Ele tentou me acalmar dizendo que teria 60 dias de treinamento antes de qualquer missão.
Depois contou que o treinamento seria encurtado para duas semanas. Meu filho nunca tinha sido soldado, nunca tinha pegado num fuzil, e em duas semanas estaria indo para uma guerra.
As ligações começaram a diminuir. O menino que falava comigo todos os dias passou a dizer que não tinha tempo. Durante o treinamento, deram a ele uma bota dois números maior.
Ele tropeçou, caiu e machucou o joelho. Segundo os companheiros contaram depois, estava machucado quando foi para a missão.
Nosso último contato direto foi em 13 de abril. Ele ligou do telefone de um colega e disse que ficaria sem sinal, talvez por dois ou três meses. Pediu para falar com as filhas, com as irmãs, com a família.
Desde pequeno eu ensinava que as pessoas precisam conversar olhando nos olhos, porque é no olho que a gente percebe o que está acontecendo.
Mesmo por telefone nós fazíamos isso.
Naquele dia percebi que ele estava chorando. Tentava esconder, mas eu conhecia meu filho. Pedi: “Meu filho, deixa mamãe ver seu olho.” Ele mostrou. O rosto estava vermelho, os olhos cheios de lágrimas.
Depois disse que precisava desligar e falou que me amava.
No dia seguinte, mandou um áudio para uma amiga que tinha sido criada com ele, como uma irmã. No fim, pediu: “Fala para minha mãe que eu
amo ela, muito. Amo minhas filhas. Um beijo, um abraço para minha mãe, para minhas filhas e até a próxima.”
Conversas travadas: Rússia não descarta retomada das negociações com Ucrânia e EUA após reuniões dos enviados de Trump em Moscou e Kiev
Foi o último áudio do meu filho.
O que aconteceu depois eu só consegui reconstruir pelo relato de quem sobreviveu.
Disseram que o grupo atravessou um rio carregando mochilas muito pesadas, caminhou quilômetros debaixo de chuva e avançou por uma área bombardeada.
Os equipamentos ficaram molhados, o rádio perdeu o sinal e o grupo acabou atingido.
Disseram que meu filho foi um dos primeiros.
Enquanto isso, eu procurava notícias. Da unidade, só diziam: “A equipe do Martins está bem.” Mas coração de mãe não se engana. Eu sentia que alguma coisa tinha acontecido.
Naquele período, sonhei com ele na beira do mar, me chamando: “Mãe.” No dia seguinte, enquanto almoçava perto da porta de casa, tive uma experiência que nunca esqueci.
Vi Eliseu entrar. Estava de cabeça baixa, como se estivesse sem graça por trazer uma notícia ruim.
Chegou perto, levantou os olhos e olhou diretamente para mim. Chamou a filha pelo apelido que costumava usar, assobiou e desapareceu.
Pensei: estou ficando doida. Estou acordada, estou almoçando, como posso estar vendo meu filho? Mas, daquele momento em diante, para mim, alguma coisa tinha acabado.
Continuei ligando todos os dias. No dia 29 começaram a aparecer nas redes sociais informações sobre a morte dele. Eu via aquilo desesperada porque ninguém tinha me comunicado oficialmente
Como uma mãe descobre pela internet que o filho morreu?
Até que um sargento telefonou e disse que meu filho tinha “tombado”.
Perguntei quando, onde estava o corpo, o que fariam. Não recebi as respostas. Pelo contrário: ouvi de maneira muito dura que o corpo poderia permanecer onde estava e ser comido pelos corvos.
Tinham acabado de me dizer que meu filho estava morto e era daquela maneira que falavam sobre o corpo dele.
Depois veio uma coisa ainda mais difícil de compreender.
A unidade dizia que Eliseu tinha morrido, mas, quando meu genro procurou os caminhos oficiais e acionou o Itamaraty, meu filho aparecia registrado como desaparecido.
Não como morto. Disseram que houve buscas, mas o corpo não foi encontrado. Até hoje eu não tenho o corpo do meu filho
. Não tenho um lugar onde possa chegar, colocar uma flor e dizer: “Meu filho está aqui.”
Também não recebi as coisas dele.
Eu queria a mochila que Eliseu me mostrou antes de partir, os documentos, qualquer objeto que tivesse estado com ele. Para outra pessoa pode parecer só uma mochila. Para mim, não.
Falam em indenização, em valores que eventualmente seriam destinados à família.
Mas dinheiro nenhum vai me dar paz. Pode dar conforto material, mas será um conforto construído em cima da maior dor da minha vida.
Não ter o corpo talvez seja uma das coisas que mais doem.
Quando alguém perde os pais, fica órfão. Quando perde o marido ou a mulher, fica viúvo. Mas quando perde um filho não existe uma palavra.
Não tem nome. Quando existe um corpo, por mais terrível que seja, a família sepulta e pode dizer: ficou aqui, está aqui.
Eu não tenho isso.
Funeral sem corpo
Então minha cabeça não para.
Como será que meu filho morreu? Sentiu fome? Sentiu frio? Sentiu dor? Sentiu cansaço? Quando deito para dormir, minha cabeça entra naquela guerra.
Eu procuro buraco por buraco, árvore por árvore, olho os soldados, olho os corpos, procurando meu filho. É uma busca que às vezes parece não ter esperança, mas eu não consigo parar.
Uma das minhas filhas perguntou se eu queria viajar, conhecer algum lugar, que ela me ajudaria. Eu respondi: “Você não vai acreditar, mas o lugar que eu quero conhecer é onde está meu filho.”
Meu sonho é ir até lá, procurar o corpo dele, encontrar alguma coisa e poder dizer: aqui está meu filho, aqui será o lugar dele.
Fizemos uma espécie de culto de despedida, um funeral sem corpo, só com uma foto de Eliseu cercada pela família e pelos amigos. As filhas dele também carregam essa perda.
Eram muito ligadas ao pai. Mas, sem o corpo, para mim a despedida nunca terminou.
Hoje uso a minha história para tentar impedir que outras famílias passem pelo que estou passando. Eliseu acreditava que passaria seis
meses na Ucrânia e voltaria.
Foi atrás de emprego, de documentos e de um sonho. Quando decidiu ir, pediu uma coisa: “Mãe, dessa vez eu queria muito que a senhora me apoiasse.”
Eu apoiei. Quando ele estava indo, acreditava que começaria uma nova vida. Eu não sabia que, naquele momento, começava o meu pesadelo.
Vítima foi encontrada com graves ferimentos na cabeça e companheiro foi preso suspeito do crime.
Colisão frontal na tarde deste domingo ainda deixou outra pessoa que estava na moto com ferimentos.
Acidente envolveu Gol e Civic na tarde deste domingo em São José do Cedro.
Vítima foi encontrada por familiares em uma área de mata, após sair de casa com uma motosserra.
Suspeito de 46 anos estava armado com revólver carregado e também portava cocaína e facões.
Rogério Camilo Ramos e sua esposa, Paulla Regina, morreram em um acidente de moto na BR-060. Virginia lamentou a morte do casal.