30 de agosto de 2026
Segurança

“A violência não é só física”: juíza de Ponte Serrada destaca importância de reconhecer sinais

Magistrada destaca que controle financeiro, humilhações e comportamentos de inferiorização também integram o ciclo de violência e defende conscientização desde a infância.

Por Oeste Mais

Atualizado em 29/08/2026 | 09:52:00

Quando se fala em violência contra a mulher, é comum que os primeiros exemplos lembrados sejam uma agressão física, uma lesão corporal ou até mesmo um feminicídio. Entretanto, a violência prevista pela Lei Maria da Penha vai muito além daquilo que deixa marcas visíveis.

Durante o Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, a juíza Fernanda Ferreira, da Comarca de Ponte Serrada, chama atenção para comportamentos que muitas vezes são naturalizados dentro dos relacionamentos e que também podem configurar violência.

“A própria Lei Maria da Penha elucida essas formas de violência. O que é muito trazido é, de fato, a violência física, aquilo que choca, uma lesão corporal, um feminicídio. Entretanto, a própria Lei Maria da Penha explica que não é só essa forma de violência contra a mulher”, destaca a magistrada.

Entre as situações que podem passar despercebidas está a violência 

patrimonial. De acordo com a juíza, impedir que a mulher trabalhe, controlar seu dinheiro, restringir o acesso à conta bancária ou aos próprios bens são formas de retirar sua autonomia.

“A violência patrimonial é algo muito comum, por exemplo, que proíbe as mulheres de trabalhar fora, de ter a própria autonomia financeira, de ter controle sobre os bens, de ter acesso à conta bancária. E tudo isso prejudica a autonomia da mulher”, explica Fernanda.

Dependência pode fortalecer o ciclo de violência

O controle financeiro pode ter consequências que vão além da questão econômica. Segundo a magistrada, quando a mulher não possui autonomia financeira e também desenvolve uma dependência emocional do agressor, sair de uma relação abusiva pode se tornar ainda mais difícil.

“Cria-se um ciclo de violência, porque a mulher se encontra numa dependência emocional e financeira daquele agressor. Quanto mais ela tenta sair, mais ela percebe que não tem alternativas”, afirma.

Esse ciclo pode fazer com que a vítima permaneça ou retorne ao relacionamento mesmo após episódios de violência. Por isso, segundo Fernanda, o enfrentamento precisa envolver diferentes setores da sociedade.

“Surge, então, essa necessidade de articulação, tanto essa divulgação massiva para que haja, de fato, um reconhecimento pela sociedade de que a violência contra a mulher não é só a violência física, como também uma articulação por diversos setores, assistência social, Ministério Público, o próprio Poder Judiciário, para que sejam coibidas essas formas de violência”, ressalta.

Violência também pode estar em palavras e comportamentos

Outro ponto destacado pela juíza é que a violência pode aparecer em atitudes que, muitas vezes, são tratadas como “brincadeiras” ou comportamentos comuns.

Comentários que diminuem, humilham ou colocam a mulher em uma posição de inferioridade também precisam ser observados, segundo Fernanda.

“Determinados comentários que um homem faz em relação à mulher, que a diminui, que a coloca em uma posição de inferioridade, ele não faz se for em relação ao amigo”, observa.

Para a magistrada, identificar esses comportamentos desde cedo é uma das formas de prevenir que padrões de violência sejam reproduzidos no futuro.

Conscientização precisa começar na infância

A prevenção, segundo Fernanda, não deve começar somente quando a violência já aconteceu. A educação para relações baseadas no respeito precisa ser construída desde os primeiros anos.

“Eu entendo que esse tipo de conscientização tem que começar muito cedo, para que realmente se exponha muitos comportamentos que alguns homens mantêm em relação às mulheres”, afirma.

A juíza explica que crianças que crescem em ambientes onde determinadas violações são vistas como normais podem acabar reproduzindo esses comportamentos.

“A partir do momento que aquela criança cresce num ambiente que ela entende normal aquele tipo de violação, ela vai replicar o comportamento. É natural que haja esse comportamento reiterado”, pontua.

Por isso, além do trabalho realizado pela Justiça e pelos órgãos de proteção, a mudança também depende da sociedade. Reconhecer comportamentos abusivos, não naturalizar a violência e ensinar desde cedo sobre respeito e igualdade são medidas que podem ajudar a interromper ciclos que atravessam gerações.

Agosto Lilás reforça que violência não é apenas aquilo que deixa marcas

O Agosto Lilás busca justamente ampliar esse olhar. A campanha, criada em referência à Lei Maria da Penha, procura conscientizar a população sobre as diferentes formas de violência contra a mulher e incentivar a denúncia e a busca por ajuda.

A violência pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral. Em muitos casos, ela começa de maneira silenciosa, com controle, isolamento, ameaças, humilhações ou restrições financeiras, antes de chegar a uma agressão física.

Em Ponte Serrada, o trabalho da rede de proteção e do Poder Judiciário reforça a necessidade de olhar para essas diferentes formas de violência e oferecer suporte para que as vítimas consigam romper o ciclo.

Como resume a juíza Fernanda Ferreira, é necessário “ter esse olhar atento para lidar com essas questões”.

Mais do que uma campanha de um mês, o Agosto Lilás reforça uma necessidade que permanece durante todo o ano: reconhecer a violência, combater sua naturalização e garantir que mulheres tenham informação, proteção e condições para romper o ciclo de violência.

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